Cinema Suspense Terror

Cinema fantástico e o protagonismo feminino

Na contramão do atual desmanche do cinema brasileiro, o cinema fantástico é um gênero que vem crescendo bastante nos últimos anos. Diversas produções nacionais estão ganhando cada vez mais espaço em festivais mundo afora, onde muitos diretores estão investindo mais no gênero, como os aclamados Bacurau (de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) e Morto Não Fala (de Dennison Ramalho), ambos lançamentos deste ano.

Com público fiel e dedicado, feiras e festivais específicos, novos filmes e séries lançados a cada semestre, entre outros eventos do tipo, o cinema fantástico vem se tornando um dos gêneros mais populares da atualidade.

Filmes de horror, terror e fantasia nunca foram tão bem avaliados pela crítica. Corra!, um filme de puro horror, teve quatro indicações ao Oscar em 2018. Algo não visto há anos na Academia.

No Brasil, o gênero caminha a passos largos, mas ainda não acertou a mão para despertar mais interesse pelo público e poder competir com os blockbusters do mercado internacional.

Vale dizer que não é de hoje que o gênero é explorado no Brasil. O mestre José Mojica Marins, mais popularmente conhecido como “Zé do Caixão”, foi o precursor dos filmes de terror por aqui, produzindo diversas obras-primas como À Meia-Noite Levarei Sua Alma, clássico cult de 1964.

Atualmente, nomes como Juliana Rojas (As Boas Maneiras), Gabriela Amaral (O Animal Cordial) e Rodrigo Aragão (A Mata Negra) fazem parte da nova safra de diretores do gênero, dispostos a manter o cinema fantástico vivo e de vento em popa.

 

Lilian Jolie, roteirista e diretora do filme A Caixa (premiado com destaque na votação do Concurso Interativo no Festival de Cinema de Gramado em 2018), conta para nós nesta entrevista exclusiva os desafios de atuar nesse gênero. A cineasta santista também falou um pouco de sua nova produção, Bloody Mary – A Lenda do Espelho. Confira!

Z1: Lilian, seu primeiro curta-metragem, A Caixa, conquistou uma visibilidade importante, participando do concurso interativo do Festival de Cinema de Gramado (RS) no ano passado e ficando como segundo mais votado no Brasil. Como é já no primeiro trabalho receber tamanho retorno?

Lilian: Foi uma grata surpresa, na realidade foi uma produção experimental e despretensiosa. Gravamos numa tarde, com ajuda de amigos e praticamente sem recursos. Quando recebi a notícia que estávamos entre os classificados para o concurso fiquei surpresa e muito emocionada. É um reconhecimento que nos deu “asas” para alçar voos mais altos.

Z1: Seu novo filme, Bloody Mary – A Lenda do Espelho, tem previsão de lançamento em junho de 2020. Conta para a gente um pouco dessa trama e como anda a produção.

Lilian: Bom, Bloddy Mary é um curta de terror que joga com questões éticas do nosso dia. É um filme que buscará dar uma abordagem aos “fantasmas” que escondemos dentro de nós, a ganância e até onde somos capazes de ir por dinheiro. Jane, a protagonista, é uma cineasta famosa que procura uma lenda urbana para seu novo filme de terror. Ao se deparar com a lenda do espelho, também conhecida como Bloody Mary, ela acaba por desencadear uma série de acontecimentos, sendo surpreendida por uma criatura monstruosa, que está disposta a revelar segredos sombrios do passado da cineasta.

É um desafio enorme trabalhar com o cinema fantástico, aquele que engloba terror/horror e fantasia. Os custos são altíssimos. A produção está em fase de contratação de elenco, e ajustes no roteiro. A equipe é bem competente, e desta vez temos um aporte financeiro através do ProAC (Secretaria de Cultura do Estado de SP), que nos permitirá trabalhar com efeitos especiais, animação, cenários próprios e todo investimento que um filme de terror merece.

Z1: Por que você escolheu trabalhar com terror/suspense?

Lilian: Olha, por formação acadêmica eu sou fotógrafa. Fiz uma pós em cinema no último ano, aprendi sobre todas as partes da produção de um filme, mas meu grande amor é a direção de fotografia. E por que enfatizei isso? Porque nos filmes terror e suspense, a fotografia é algo fundamental, senão a grande característica do filme em si. Uma cena fotografada de maneira adequada vai mexer com os sentidos do espectador, vai trazer a sensação de medo e fará ele se sentir dentro do filme. E isso é genial.

Também porque é um gênero pouco explorado no Brasil e, por consequência, há pouca concorrência. Nestes últimos anos estamos avançando com boas produções como O Rastro, Morto Não Fala e O Segredo de Davi, mas tem que ter muita coragem para produzir filmes de terror e suspense aqui no Brasil, pois o investimento é alto, e também é difícil achar apoio. Eu gosto do desafio, e gosto do tema. Meu diretor favorito é o M. Night Shyamalan, de O Sexto Sentido, e foi ali que eu comecei a ter minhas primeiras ideias de filmes de suspense.

Z1: Você acha que o cinema brasileiro atravessa uma crise? Qual o papel da mulher cineasta hoje?

Lilian: Realmente, o cinema nacional atravessa um período de tentativa de desmanche. Muito do que foi conquistado nesses últimos 20 anos está por escapar pelas nossas mãos. É claro que muito precisa ser lapidado e readequado. Principalmente sobre os recursos e leis de incentivo, mas o momento é também muito favorável para não se perder esta luta. Acho que a melhor resposta a esta tentativa de desmanche é a visibilidade que alcançamos ao emplacar dois filmes vitoriosos em Cannes neste ano, por exemplo.

Sobre o protagonismo feminino, eu também acho que vivemos um momento único jamais visto. Apesar dos números ainda não serem satisfatórios e de existir um machismo estrutural na indústria cinematográfica, acredito que isso deve mudar ao longo dos próximos anos. Temos visto mais e mais diretoras, roteiristas e mulheres competentes em áreas de destaque que não somente a atuação. Netflix, HBO e demais canais já apostam nesta tendência. Logo teremos o lugar que nos é de direito. A luta segue!

Z1: Que mensagem você deixa ao público que está na expectativa de assistir ao Bloody Mary?

Lilian: Eu queria pedir que a pessoas fossem mais vezes ao cinema ver filmes nacionais. Dar uma chance para essa indústria que vem crescendo, gerando milhares de empregos e movimentando um mercado inteiro de oportunidades. Desde o pipoqueiro até o eletricista de set são R$ 20 bilhões por ano, e a cada R$ 1 investido temos um retorno de R$ 2,60 em tributos. São números que não dá para a gente ignorar, então valorizem o nosso cinema!

E, cuidado, se você tiver um segredinho obscuro, não passe na frente de um espelho (risos), Bloody Mary pode querer bater um papo contigo…

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